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Durante toda nossa vida aprendemos a aprender. Adquirimos conhecimentos, interpretamos informações, processamos dados. Primeiro em casa, com nossos pais; depois na escola, com nossos professores; por fim, com a vida, pelas experiências que vivemos. Para tudo isso, assistimos aulas, lemos jornais, navegamos na internet e exploramos todas as formas de aprendizado. Dos livros à televisão. Dos cursos à internet. Todo um esforço que parte de um pressuposto que nos foi ensinado logo no começo de nossas vidas: Só se dá bem na vida quem aprende, sempre.
Por conta disto, vemos uma legião crescente de pessoas ansiosas por informação, assinando todos os tipos de boletins e newsletters, fazendo cursos on-line, lendo jornais de cabo a rabo, sem se permitir perder um minuto do telejornal ou ouvir uma música no carro ao invés de uma música. Quanto mais informações temos à nossa disposição, maior a ansiedade por estar informado de tudo o que acontece.
Sabe qual o efeito deste fenômeno? O excesso de informação e conhecimento mata nossa capacidade de pensar. A pasteurização do conhecimento pelas mídias e a massificação dos canais de comunicação estão empobrecendo a nossa capacidade de raciocinar, refletir, discordar e questionar. É muito cômodo receber a informação já processada, mastigada, pronta para o consumo. É muito confortável assumir como nossa a opinião de um especialista que comenta sobre um determinado assunto. Não percebemos que estamos ficando com um tipo de preguiça mental.
Obviamente não quero acabar com as instituições do conhecimento. Até porque eu faço parte delas. Elas são necessárias e graças a elas que todo o caminho do desenvolvimento tem sido construído e trilhado ao longo da existência humana. O que estou tentando alertar é que não existe a construção dos novos caminhos futuros partindo apenas de prerrogativas previamente existentes. O novo envolve inexoravelmente a destruição do antigo. Embora esta construção tenha acontecido até os dias de hoje, estou percebendo que a condição humana vivida hoje vem aumentando aos poucos a resistência do comportamento de destruição.
Posso citar inúmeros exemplos do dia-a-dia no qual isto acontece. Empregados recebem manuais e processos e são doutrinados a segui-los sem questionar. Alunos recebem passivamente os ensinamentos de seus mestres e seus livros, e qualquer estímulo ao espírito crítico é desestimulado. Filhos são educados nos mesmos princípios que seus pais, sua cultura e sua sociedade e crescem acreditando que apenas elas são válidas.
Eu sei bem o que estou falando, porque meu trabalho é justamente o de desconstruir estas tais ‘verdades absolutas e inquestionáveis’ que impedem as pessoas de criar e mudar. Em empresas, meu maior esforço é destruir todos os princípios dos funcionários que os impedem de ver novas possibilidades, desmontar o ‘jeito certo de fazer as coisas’, matar vacas sagradas e derrubar mitos e paradigmas. As resistências são inúmeras, pois forço as pessoas a saírem de suas zonas de conforto para encarar, com outros olhos, verdades diferentes que eles rejeitavam, e, por rejeitar, não enxergavam as oportunidades ali escondidas.
Com os meus alunos se passa a mesma coisa, o desafio de desconstruir as ferramentas, técnicas, teorias, métodos e procedimentos que eles aprenderam nos livros e com outros professores, para estimulá-los a criar suas próprias teorias, técnicas e ferramentas. Ensinar que algo mal feito criado por eles vale mais do que algo feito pelo uso de uma ferramenta. Como pode? Eles questionam. Qual o valor disto? Não se conformam. Porque reinventar a roda se alguém já fez isso e posso copiar? Me interrogam. Levo um semestre inteiro nesta luta, pois o racional pensamento positivista cartesiano é mais forte e mais apelativo, pois coloca ordem e regras nas coisas, justamente o que todos querem e procuram formação justamente para este fim. Alguns alunos entendem o recado logo no começo, mas alguns chegam ao final do semestre sem captar a mensagem. Quem sabe a ficha cai em algum momento no futuro.
O mundo é tão complexo que não podemos mais nos dar ao luxo de assumir que apenas meia dúzia de ferramentas possam resolver todos os problemas. Para dar conta dos desafios de hoje, precisamos saber adaptar, flexibilizar, reinventar. Precisamos pensar diferente dos demais para inovar. Precisamos ousar mudar, nos atrever a testar novos modelos e novas formas baseados em paradigmas que não existiam antes. Em que momento da sua vida você aprende isso? Aí que está o problema.
O importante aqui é que só podemos desconstruir DEPOIS que construímos. Não dá para criar um ser humano que não siga regras, não tenha princípios e não aprenda padrões. A construção formal é necessária e importante, fundamental em nosso processo de formação e obrigatório para nossa inserção no mercado de trabalho. Só precisamos nos dar conta que o conhecimento formal nos coloca no jogo, mas é a capacidade de pensar diferente que nos diferencia dos demais. O que sabemos, embora importante, não pode ser definitivo e imutável. A verdadeira habilidade que as empresas procurarão em jovens no futuro não é a capacidade de aprender, mas a capacidade de aprender, desaprender, para então aprender novamente. Este deve ser o novo paradigma do conhecimento.
“É o que pensamos que sabemos que nos impede de aprender” Claude Bernard, fisiologista francês
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Esta semana minha filha me contou uma história que eu vou reproduzir aqui, pois ilustra bem muita coisa que tenho dito sobre perfil empreendedor.
Com 14 anos, os jovens que estão se formando no ensino médio costumam ser estimulados pela própria escola a levantar fundos para cobrir as despesas da festa de formatura, uma prática comum em várias escolas.
Por vários anos, os alunos da escola da minha filha têm feito sempre a mesma coisa: Vender rifas e brigadeiro. Os alunos, organizados em duplas, compram a matéria prima, fazem os brigadeiros em casa e vendem para os colegas na escola a R$ 1,00 cada. Em um sistema de rodízio entre os alunos, todos se envolvem e arrecadam em média R$ 80,00 por dia, em cada um dos dois turnos da escola.
Eu me lembro de ter perguntado à minha filha porque eles não vendiam algo diferente, mas ela respondia que não adiantava, pois já haviam tentado tortas, bolos, salgadinhos, mas nunca vendia bem. O brigadeiro era a fórmula do sucesso e não valia a pena trocar. Era garantia de 100% de venda.
Pois bem, este ano, um garoto chamado Cadu mudou esta realidade. Ele surgiu no horário do intervalo com uma bandeja com 30 pastéis quentinhos. A R$ 2,00 cada, em menos de 5 minutos ele vendeu tudo!
Os colegas logo perceberam a grande oportunidade e começaram a vender pastéis também. Hoje, um mês depois, a venda de pastéis está gerando uma receita de R$ 180,00 por dupla de alunos por dia. Cada pastel gera um lucro de R$ 1,50, pois eles pagam R$ 0,50 cada um graças a uma boa negociação com o dono da pastelaria em frente à escola que frita na hora e entrega aos alunos no horário do intervalo. Os brigadeiros geravam um lucro de R$ 1,00 cada, pois os pais dos alunos financiavam a matéria prima. Sem contar o fato de que os alunos perdiam metade da tarde fazendo os brigadeiros.
Além do ganho financeiro, existem outros fundamentos de empreendedorismo nesta singela história que vou explorar a seguir:
1) O que caracteriza uma oportunidade. Uma oportunidade é identificada por quem consegue conectar fatos e extrair destas ligações uma grande idéia. Veja os fatos:
a. Os alunos não podem sair da escola no horário do intervalo;
b. A pastelaria fica lotada na saída da escola;
c. O pasteleiro não pode vender seus produtos dentro da escola, onde a exclusividade é da cantina já estabelecida;
d. A cantina vende hoje salgadinhos, frios e já conhecidos, a R$ 2,30 cada;
e. Fazer brigadeiro dá trabalho;
f. Ninguém mais tem disposição para tentar algo diferente de brigadeiro. O paradigma já foi instituído e paralisou todas as tentativas de mudança;
g. Alunos só podem vender algo na escola se for para arrecadar fundos;
Olhando estes fatos isolados, não é difícil chegar à conclusão que vender pastéis foi uma grande ideia que qualquer um poderia ter tido. Por que ninguém pensou nisto antes? Porque ninguém conseguiu ver a conexão destes fatos em meio a várias outras coisas que acontecem ao nosso redor. Esta percepção é rara nas pessoas, mas pode ser adquirida se devidamente treinada. Empreendedores refinam esta competência no seu dia-a-dia.
2) A inovação está no modelo de negócio. Note como foi estabelecida a lógica do negócio que explica o seu sucesso:
a. O fator novidade, pela oferta de um produto aos alunos que não existia antes. Vende-se mais que o dobro de pastéis do que brigadeiros;
b. A alta qualidade do produto, diferente das tortas e bolos feitos pelas mães dos alunos;
c. O apelo do produto fortemente centrado no irresistível aroma de pastéis quentinhos no horário do intervalo;
d. A terceirização da produção que leva mais alunos a se interessarem no processo de venda porque não precisam perder tempo na produção, como no caso do brigadeiro;
e. A lógica financeira representada por um preço menor que o do concorrente, mas ainda assim 300% maior do que o custo, obtido graças ao poder de negociação junto ao produtor que não tinha acesso a este mercado;
f. O caráter filantrópico da ação, pois todo o lucro é doado ao colégio com o fim exclusivo de realizar a festa de formatura, caso contrário os alunos não teriam autorização para conduzir atividades comerciais dentro da escola.
Basta que um destes elementos falte para que a idéia naufrague. O modelo de negócio só faz sentido porque todos estes elementos, juntos, dão sentido à lógica do negócio.
3) Perfil empreendedor. Veja Cadu, o garoto que percebeu esta oportunidade e influenciou os colegas a adotarem sua idéia.
Sob os critérios existentes, Cadu é conhecido como um mau aluno. Repetiu de ano por insuficiência de notas. Vive zanzando pelas ruas, de bicicleta, ‘largado’ da família. Apronta mil travessuras e não se arrepende mesmo ficando de castigo. Detesta seguir regras, é despreocupado com relação ao futuro e não mede as conseqüências de suas atitudes, muitas vezes se arrependendo depois de ter agido. Você não gostaria de ver seu filho perto dele. Por outro lado, ele é sensível, é esperto e bastante ligado nas coisas, tem ótima capacidade de perceber o ambiente, gosta de fazer amizades. Os amigos gostam das suas idéias, o que faz com que ele tenha sempre seguidores que o acompanham em suas aventuras.
Ao longo dos anos, conhecendo e estudando as biografias de empreendedores bem sucedidos, percebi que o empreendedor típico foge do estereótipo do ‘bom menino’ ou do ‘aluno exemplar’. Eles são mesmo rebeldes, em descompasso com padrões vigentes, dedicados a romper limites e a questionar regras impostas. Outra coisa que Cadu apresenta em comum com empreendedores é a influência familiar. Os pais de Cadu são donos de um dos mais relevantes negócios na área de alimentação da cidade, que inclui restaurantes e serviços de Buffet.
Isso nos faz pensar no nosso atual modelo educacional. A forte carga na formação de conteúdo privilegia a carreira executiva, mas não é suficiente para formar competências importantes para empreendedores, como criatividade, tolerância a erros, gerir com poucos recursos, receptividade a riscos, perseverança e determinação. Empreendedores adquirem esta formação em outros ambientes, principalmente o familiar.
É claro que muita coisa pode acontecer ainda na vida de Cadu antes de descobrir se ele será ou não um empreendedor bem sucedido. Vamos acompanhar de perto sua trajetória, mas esta história mostra como os sinais do perfil empreendedor se manifestam bem cedo nas pessoas, e que qualquer iniciativa, por mais simples que possa parecer, carrega em si todos os fundamentos de grandes idéias de negócio na prática, muito antes da teoria.